Poder e humildade na Administração Pública

Poder e humildade na Administração Pública

 

 

É relevante, dado o momento histórico porque passamos, uma reflexão sobre o exercício do poder e as suas implicações nas relações de trabalho junto à Administração Pública brasileira.

O poder, não raras vezes, acaba por incutir no indivíduo que o exerce um sentimento de absoluta intangibilidade face às regras comuns de convivência em sociedade. Atitudes petulantes e desprovidas de um mínimo de bom senso tornam-se corriqueiras, promovendo-se, sem a necessária percepção pelo seu autor, a semeadura do rancor junto aos indivíduos faticamente subordinados àquele que se considera “todo poderoso”.

Trata-se do chamado “poder pelo poder”, de insustentável “massageamento” do ego, de perseguições desarrazoadas, ou seja, desmandos de toda sorte que levam à ineficiência, à burocratização ilegal da Administração Pública. Isto é, tem-se verificado diuturnamente o emprego da soberba nos trâmites públicos por intermédio de indivíduos que pensam estar acima de qualquer regramento moral e ético. E o mais intrigante é que eles não sabem ou, pelo menos demonstram não saber, que a melhor forma de se manter no poder, por mais baixo que seja o cargo exercido, dá-se pela conquista diária dos subordinados. Aqui estão abarcadas a demonstração de gratidão por tarefas desempenhadas, a conduta com gentileza e, principalmente, a busca eterna do entendimento dos problemas de cada subordinado.

Ao que tudo indica, tendo-se como pressuposto que nem todas as pessoas nascem líderes, ao ocuparem qualquer cargo de direção no poder público, os indivíduos inseguros da própria competência, ao se verem virtualmente ameaçados em sua posição, escondem-se pela máscara de “Cesar” e (in)conscientemente ascendem ao Olimpo! Vislumbra-se, desse modo, a autodefesa dos incautos momentaneamente colocados em posição de “destaque”.

Pode-se dizer, sem ressaibos de dúvidas, que a altivez daqueles que exercem cargos de chefia ou direção na Administração Pública configura-se em mais um grande empecilho à concretização do interesse público, já que o constante estado de pressão e fomento às ameaças prejudica severamente o trabalho dos servidores-subordinados, os quais somente estão ali para garantir o atendimento ao povo.

E, como alguém já disse um dia, só se conhece verdadeiramente uma pessoa ao se conceder um pouco de poder a ela! Talvez, essa seja a melhor forma de se separar o “joio do trigo”, ou seja, de nunca repetir o erro de confiar o poder de uma coletividade, através da Administração Pública, mais de uma vez, a cidadãos que não conferem limites aos próprios atos. Lamenta-se que justamente no local onde há, de maneira otimizada, o dever legal e, quanto o mais, o dever moral, de agir sem cometimento de abusos contra os servidores que efetivamente fazem andar a máquina pública, são perpetrados inúmeros descomedimentos, arraigando-se no senso comum a política da desconfiança.

Destarte, a humildade precisa estar unida – de modo estanque – ao cerne de qualquer ordem emanada de um indivíduo que detenha “autoridade” sobre um ou mais servidores públicos, com o que se prestigiará a eficiência, sem se afastar da necessária hierarquia na Administração Pública, colorindo-se, outrossim, a dignidade de toda pessoa humana. Aliás, dentro do contexto até aqui aferido, tão-somente haverá legitimidade do agente público exercente de poder, daí se podendo falar em autoridade propriamente dita, quando a singeleza de suas atitudes trouxer reconhecimento aos que “o servem”.

Por fim, diga-se que o presente texto visa conduzir aos que se enquadraram nas condições analisadas para uma via estritamente consentânea com a moral, a ética, o respeito e, sobretudo, a finalidade última da existência da Administração Pública, a satisfação do interesse da coletividade – escopo público.

 

(Texto publicado em 2006 na seção Ensaio do jornal Diário dos Campos; nessa época o autor era advogado e exercia o cargo de Assessor Jurídico no Município de Ponta Grossa.)

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